O Último Bilhete

            Era um domingo pela manhã e Jorge estava em sua casa se preparando para sair quando ouve a campainha tocar. (Din Don!) Ele vai até a porta, abre e encontra um envelope branco sobre o tapete, em frente à porta. Um pouco curioso, por conta do dia e da hora da entrega, decidiu abrir. Dentro do envelope, encontrou uma folha branca dobrada que parecia ser uma carta. O título dizia: “Papai, a culpa é sua”. Por alguns segundos, Jorge ficou completamente paralisado. Ele carregava a culpa de não ter sido um pai presente para os seus filhos mais velhos. Jorge sempre foi uma pessoa muito livre e agradável e, ao longo da vida, teve muitos relacionamentos. Destes ele possuía três filhos: Luís, Pedro e a pequena Jasmim. A mais nova era do seu casamento atual e ainda morava com ele, pois tinha apenas oito anos. Luís, seu filho mais velho, sempre foi muito esperto e independente. Ainda que eles não se falassem muito, ele nunca teve motivos para se preocupar com luís. Pedro, no entanto, o seu filho do meio, ele não tinha contato, o que sempre lhe causava muita preocupação. Porém, após tantos anos de afastamento, Jorge tinha vergonha e medo de procurar por ele.

Temeroso e, agora, ainda mais curioso por conta do título, Jorge respirou fundo e voltou para dentro de casa. Sentou-se no sofá da sala e começou a ler.

Papai, a culpa é sua.

Sabe, meu pai, nem sei se posso chamar você assim. Você não tem ideia do tamanho da ferida que sua ausência me causou. Eu decidi desistir de tudo e acho que você precisa saber disso. Na minha infância, eu ficava sentado em frente à nossa casa olhando para os homens que passavam na rua, esperando que um deles fosse você. Acreditava que você voltaria a qualquer momento para morar conosco. Enquanto criança, alimentei o sonho de que você entraria pela porta para jogar futebol comigo, como meus amigos faziam com os pais deles. Minha mãe não sabe, mas eu fiquei na porta ouvindo-a chorar por muitas noites seguidas depois que você foi embora. No dia em que você nos deixou, sem me dar nenhuma explicação, eu perdi minha mãe e meu pai. Sem você na casa, mamãe precisava trabalhar em dois empregos para manter as contas em dia e não permitir que acabássemos indo morar no carro.

No entanto, após perder um desses empregos, foi exatamente o que aconteceu. Como eu ainda era pequeno, ela fingia que nós estávamos brincando de acampamento, mas eu a via se distanciando do carro para chorar. Ficamos meses sem ter onde morar, até que uma amiga que mamãe não via há muitos anos nos encontrou no estacionamento de um supermercado. Mamãe até tentou se esconder, de vergonha, mas a mulher percebeu o que estava acontecendo e se ofereceu para ajudar. Ela ofereceu um quarto em sua casa até mamãe conseguir alugar um lugar para nós. Depois desse período, já um pouco maior, passei a me perguntar por que você nos abandonou. A única coisa que me vinha à cabeça naquela época era de que você não gostava de mim e de que, quando eu nasci, você decidiu abandonar nossa casa porque não queria ter filhos. Passei a me culpar e isso me tornou uma criança cada vez mais introspectiva e reservada. Me lembro de ficar pedindo a Deus que você aparecesse na escola no dia dos pais. Eu ficava muito envergonhado por não ter um pai na apresentação do dia dos pais. A amiga que ajudou a mamãe frequentava uma igreja e ela disse que, se pedíssemos algo para Deus em nome de Jesus, ele nos atenderia, mas Deus nunca me ouviu.

Na adolescência, passei a odiar você com todas as forças. Quando alguém me perguntava sobre meu pai, eu dizia que não tinha pai. Eu havia passado toda a infância vendo a dificuldade que minha mãe passava, sozinha, para não nos deixar faltar nada e isso havia deixado uma ferida que, com o tempo, virou amargura. Além disso, você nunca mais nos procurou e, mesmo que eu não quisesse admitir, eu queria muito ter tido mais momentos com você. Eu sentia muito a sua falta.

No final de toda essa decepção, ficou apenas uma promessa: de que eu nunca seria para os meus filhos o que você foi para mim, ausente. Eu jamais abandonaria a minha família como você fez. Quando fiz vinte e um anos, conheci uma menina no trabalho. Me apaixonei assim que a vi sorrindo. Ela era linda e meiga, estava sempre preocupada comigo e perguntava como eu estava todas as manhãs. Com muita dificuldade, criei coragem e a convidei para tomar um café. Um ano e dois meses depois, estávamos casados. Não demorou muito para nosso primeiro filho estar a caminho. Quando ele tinha dois anos, eu e minha esposa tivemos um grande desentendimento. Na verdade, nem me lembro qual foi o real motivo. Eu não sabia como ser um marido, pois havia sido criado sem pai, e ela também havia crescido apenas ao lado da mãe. Aquilo que nos uniu no início, agora parecia ser o principal problema: a ausência de uma figura paterna. A convivência estava cada vez mais difícil e as cobranças aumentavam gradativamente. Eu não sabia como ser marido e pai e ainda era muito jovem e orgulhoso para admitir.

Quando nosso filho fez quatro anos, no ano em que faríamos sete de casamento, após a festinha de aniversário dele, tivemos outro grande desentendimento. Entre ofensas e xingamentos, eu decidi sair de casa antes que ficasse pior. Peguei algumas roupas, coloquei em uma mochila e saí pela porta sem saber para onde ir. Lembro que minha esposa ficou sentada no sofá da sala, com nosso filho no colo, chorando de cabeça baixa. Como não tinha para onde ir, dirigi por horas seguidas até chegar ao litoral. Então, parei o carro em frente ao mar e desci. Sentei em uma grande pedra, fiquei olhando para o mar e pensando no que eu poderia fazer. Quais eram as minhas opções? A única coisa que pensava era que queria sumir. Desaparecer parecia ser a única opção. Eu não aguentava mais, não tinha estrutura para suportar. Voltei para o carro, peguei papel e caneta e comecei a escrever um último bilhete. Endereçado à minha mãe e à minha esposa. Continuar por quê? Eu estava cansado de lutar sem sair do lugar. Eu não tive pai, vivi longe da minha mãe, que só trabalhava e agora estava perdendo a minha família. A mulher da minha vida e o meu filho. Eu era jovem, impulsivo e imaturo, mas não sabia como ser diferente. Deixá-los em paz parecia fazer sentido naquele momento. Não sei o porquê, enquanto estava sentado naquela pedra, me lembrei da amiga da mamãe. Ela sempre dizia que tudo o que pedíssemos a Deus em nome de Jesus, ele faria. Então, comecei a gritar em voz alta: “Deus, me tira daqui. Por favor, Deus, me leva embora daqui, em nome de Jesus.” Nesse exato momento, o celular, que estava no meu bolso, vibrou. Era uma mensagem da minha mulher que dizia: “Não nos abandone. Volta pra casa.”

Quando li a mensagem, toda minha infância passou na mente em um segundo. Comecei a chorar desesperadamente. Fui tomado por um misto de vergonha e sentimento de culpa. Aquela mensagem me fez perceber que eu estava prestes a fazer para o meu filho o mesmo que você tinha feito para mim. Abandoná-lo. Eu sempre prometi que não faria isso, mas era exatamente o que eu estava fazendo. Após chorar muito, pedir perdão e socorro a Deus, levantei da pedra decidido a pedir ajuda. A única pessoa que vinha à minha mente era a amiga da mamãe. Quando contei para ela o que estava acontecendo, ela orou comigo e me apresentou uma pessoa que me ajudou a mudar de vida.

Então, Papai, desde o dia em que desisti de tudo, tenho lutado para ser um melhor pai e marido, mas, para isso, preciso tirar do meu coração a mágoa que a sua ausência me deixou. Por isso, pai, preciso dizer que eu te perdoo por não estar presente na minha vida. Perdoo por não comparecer à escola em nenhum dia dos pais. Perdoo por não ajudar a mim e à minha mãe nos momentos difíceis. Perdoo por não me ligar no dia do meu aniversário. Perdoo por não comparecer no dia do meu casamento. Perdoo por não estar presente no nascimento do meu filho, seu neto. Perdoo por nunca me pedir para participar da minha vida. E espero, de todo o coração, que no próximo dia dos avós, você compareça à escola do seu neto. Eu tive que crescer longe do meu pai, mas quero muito que meu filho cresça perto do vovô. A culpa é sua, papai, mas o perdão é meu, e estou disposto a lhe oferecer, se o senhor estiver disposto a superar o que passou e seguir em frente. Ainda preciso do senhor. Me ajuda a superar? Vamos fazer isso juntos.

Agora levanta e abre a porta da casa novamente, por favor. Preciso lhe apresentar o seu neto e quero muito lhe dar um abraço.

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